Saúde não é para curiosos e o Brasil não é para amadores

 

O atual ministro da Saúde – Marcelo Castro – passou a se dedicar à política em 1982. Quando assumiu o ministério, em outubro de 2015, em um gesto da presidente Dilma Rousseff para ampliar o espaço do PMDB no governo ele atuava como deputado federal. Numa substituição que visou apenas critérios políticos a presidente substituiu o então ministro Arthur Chioro (PT) por Marcelo Castro (PMDB). Segundo consta o atual ministro é psiquiatra e não exercia como médico há mais de 20 anos estando, portanto, completamente fora do exercício da profissão há pelo menos duas décadas. Assim, não é de se espantar que logo pudéssemos observar algumas deficiências. Nesta segunda-feira (25), ele gerou insatisfação no Planalto ao afirmar “Nós estamos há três décadas com o mosquito aqui no Brasil e estamos perdendo feio a batalha para o transmissor da dengue, zika e chikungunya “. Lembrou ainda da triste estatística na qual o Brasil registrou recorde de casos de dengue em 2015. Nisso ele não mentiu, mas com certeza não é o que se esperava de um ministro recentemente nomeado e de quem se esperava algo mais consistente e proativo.  Falas desconexas como “Torcer para que as mulheres peguem zika antes da idade fértil porque aí ficariam imunizadas pelo próprio mosquito e não precisariam de vacina” ou fazer uma piada do tipo “Além de usar o Exército no combate ao mosquito poderíamos usar também a Marinha, porque o mosquito se reproduz na água, e a Aeronáutica, porque ele voa” soam tão fora do contexto que chegam mesmo a causar indignação. Na tentativa de evitar declarações embaraçosas e polêmicas a maioria dos anúncios fica a cargo de diretores e secretários do ministério e o ministro tem sido figura cada vez mais ausente na maioria das coletivas de imprensa.

O que mais impressiona é a escolha de alguém tão despreparado para ocupar um cargo tão relevante quanto o de ministro da saúde. Numa crise sem precedentes a saúde já teria enormes dificuldades em mãos experientes e preparadas, diga-se de passagem, que também não eram as de Arthur Chioro (PT), embora o antigo ministro estivesse bem mais preparado que o atual. Na época da demissão de Chioro ficou aquela esperança, que logo se esvaiu, de que a presidente pudesse escolher um nome mais à altura de um ministério tão importante. Mas, infelizmente Dilma não muda e numa visível rifa de ministérios continuou sua saga na tentativa de se manter no cargo de Presidente da República custe o que custar. A verdade é que ela também não está à altura do cargo que ocupa e suas escolhas apenas refletem sua desorientação. Como já tenho dito “saúde não é para curiosos e o Brasil não é para amadores!”

 

Sem copa, sem saúde, de olho no amanhã e aguardando as olimpíadas. Claro que tudo isso com muuuuito samba!

Há algum tempo venho insistindo sobre o problema da gestão em saúde. Quanto mais  o tempo passa, mais tenho ratificado minha impressão. Recentemente vimos as autoridades cariocas solicitando ajuda federal em caráter de urgência pela falência dos serviços públicos de saúde na cidade e no estado do Rio de Janeiro. Num exercício de memória não muito sofisticado lembremos que há 18 meses (um ano e meio) era reinaugurado o Maracanã após reformas para a copa do mundo de futebol (FIFA  2014) com gastos que superaram 1 bilhão de reais. O gasto total com todos os estádios para copa do mundo de futebol em 2014 foi da ordem de 8,48 bilhões de reais. Recentemente foi inaugurado o Museu do Amanhã que custou cerca de 215 milhões de reais. O réveillon 2016 no Rio de Janeiro celebrou a chegada dos jogos olímpicos e os 100 anos do samba. Em Copacabana, tivemos uma das maiores festas de réveillon do mundo com 16 minutos de queima das 24 toneladas de fogos compradas para o evento.  Além disso, apresentaram-se em shows vários artistas e claro as baterias de escolas de samba. Enquanto isso o ministério público precisou acionar as autoridades para o cumprimento dos pagamentos das instituições e profissionais de saúde.

Estimativas revelam que o custo das obras para a Olimpíada de 2016, no Rio, vai chegar a mais de R$ 36 bilhões de reais.

Nada contra o futebol, nem contra museus nem tampouco contra as olimpíadas e o samba, mas não seria momento de inquirir dos governantes qual seu plano de gestão de curto, médio e longo prazo para saúde? Porque tanto dinheiro gasto pelos governos em temas que são para o entretenimento e tão pouco em  temas tão mais importantes para subsistência da população. Não seria melhor priorizar outra metas mais prementes tais como saúde, segurança pública (algo nevrálgico nos dias atuais), educação e saneamento básico entre outros?

O que vemos hoje não somente no Rio de Janeiro mas em praticamente todo o Brasil é uma crise sem precedentes da saúde. Crônica de uma morte anunciada! Para quem milita na saúde e pensa um pouco sobre o sistema vigente no Brasil não fica difícil perceber o abismo que está nossa prestação de serviços de saúde. Não haverá melhora enquanto não for abordada a origem do problema. Claro que necessitamos de mais verbas, mais equipamentos, mais medicamentos, mais bons médicos, entretanto o que necessitamos antes e acima de tudo é uma gestão profissional da saúde com escala de prioridades, programação, otimização dos recursos e minimização de perdas. Tal medida exige profissionais capacitados e com conhecimento técnico adequado e não políticos interessados em explorar as misérias humanas na obtenção de votos.

Espero que esta crise sirva para uma reflexão mais profunda sobre as reais necessidades de saúde do nosso povo. Que a sociedade civil se mobilize cobrando dos governantes menos circo e mais pão. Caso isso não seja feito ainda vamos tomar uma goleada maior que os 7 x 1 que amargamos contra a Alemanha, será uma derrota ainda mais humilhante, porque perderemos para nós mesmos.

O Brasil e a Alta Complexidade

Há alguns anos estamos presenciando uma desestruturação da saúde no Brasil. Desde a saudosa passagem do Dr. Adib Jatene pelo ministério da saúde não tivemos mais ninguém que assumisse publicamente o fato da saúde brasileira necessitar de uma enorme revisão. Na época o prof. Adib combateu sem tréguas as fraudes ao Sistema Único de Saúde (SUS) além de provar matematicamente que a saúde necessitava de uma injeção de dinheiro novo para prosseguir adimplente e em crescimento quantitativo e qualitativo. Infelizmente foi derrotado por outros interesses que não contemplavam a saúde, e dignamente solicitou seu afastamento do cargo máximo da saúde brasileira. Sem exceção os ministros que sucederam o emérito professor se restringiram a manter-se no cargo e utilizar medidas paliativas para encobrir a realidade da saúde pública brasileira. Claro que esta maquiagem com o tempo se descoloriu expondo a completa inviabilidade do SUS no modelo em questão. De Fernando Henrique à Dilma não tivemos nenhum ministro da pasta que de forma clara cobrasse do executivo e legislativo mudanças para viabilização da saúde. Quando muito uns poucos esboços ainda muito pálidos perto da enorme necessidade de recursos para cobrir a defasagem nos valores a serem pagos quer a profissionais quer a instituições.  Cerca de vinte anos após a saída do Dr. Adib vemos se cumprirem suas nefastas previsões sobre o colapso da saúde pública no país. Hoje, 75% dos brasileiros dependem do Sistema Único de Saúde e, portanto, estão entregues ao produto final de uma política da saúde completamente equivocada e imprevidente. A questão somente é lembrada nos palanques durante os acalorados discursos de campanha para imediatamente ser esquecida tão logo a posse seja homologada. Todavia, como tudo que não é devidamente solucionado a questão volta cobrando uma solução. Sem saída os governantes lançam mão das velhas artimanhas que até então sempre foram utilizadas – empurroterapia! Mais maquiagem para tentar o tamponamento do problema! Acusam os médicos de não quererem atender, criam programas ilusórios como o “Mais Médicos”, e apelam para terceirizações mal feitas que nada mais são do que uma rifa das instituições públicas de saúde. Ocorre, que a situação vem progressivamente se agravando em todos os níveis. Se isso afeta a saúde como um todo, ainda mais os setores de alta complexidade que necessitam de verbas mais robustas para se manterem minimamente adimplentes e prestando um serviço de qualidade aceitável. Apenas para exemplificar há cerca de uma semana a Sociedade Brasileira de Cirurgia Cardiovascular enviou ao executivo, legislativo e judiciário nacionais uma carta expondo o iminente colapso da prestação de serviços cirúrgicos no país. Este é o dilema que também afeta outros setores de alta complexidade. Sabemos que um dia tudo isso vai passar, mas a pergunta que não quer calar – A que preço e o que vai sobrar de nossa medicina ao final de tudo isso!

A GESTÃO DE SAÚDE E A FÓRMULA 1

Ao possuir a Carteira Nacional de Habilitação estou, ao menos em tese, habilitado a dirigir; entretanto, a despeito disso não estou habilitado a pilotar um carro de fórmula 1 (F1). O conhecimento me habilita a conduzir veículos, mas ainda que existam algumas semelhanças entre os carros a complexidade e potência de um F1 exige conhecimentos específicos daquele que tenha por objetivo dirigi-lo.  Sabidamente o piloto terá um longo período de testes para  aquisição de competência específica  visando ao seu intento. Assim, para tarefas de alta complexidade devemos ter um alto nível de treinamento e preparo. Fazendo uma analogia deveríamos esperar que para a tarefa complexa e altamente específica da gestão de saúde também tivéssemos alguém com grande preparo e conhecimento para responder pela administração do bem mais precioso do indivíduo e da comunidade – a saúde. Infelizmente, no Brasil um piloto amador pode não somente pilotar o F1 como também escolher sua equipe de mecânicos! Lamentavelmente não existe na legislação brasileira nada que norteie a escolha do gestor de saúde quer em nível municipal, estadual ou federal. Isso deixa a escolha inteiramente dependente das vontades e conchavos do executivo em questão (prefeitos, governadores e presidente) que habitualmente fazem a escolha baseada em quesitos políticos tais como pagamento de dívidas de campanha, imposições dos partidos da base aliada ou mesmo critérios ainda mais amadores tais como amizade ou simpatia. Assim, nos deparamos com freqüência com “administradores” assumindo a pasta da saúde sem qualquer preparo ou conhecimento técnico específico que garantam minimamente a eficiência e presteza de suas decisões. Tal espectro de atitudes obviamente leva a inúmeros problemas que tem sido presenciados nos mais diferentes pontos da nação brasileira. O desconhecimento específico da área  faz com que estes gestores fiquem completamente dependentes do segundo escalão, que  muitas vezes dizem o que o gestor que ouvir e não o que ele precisaria ouvir. Apenas para ilustrar minha afirmação temos um engenheiro como secretário municipal de saúde do maior município da nação e um dos dez maiores do mundo com uma população que ultrapassa os 10 milhões de habitantes.

No Brasil a saúde pública necessita de mais recursos, mas sem dúvida necessita urgentemente de um novo modelo de gestão. A administração da saúde de ser feita por profissionais da área, com grande conhecimento técnico e notoriedade  para a otimização dos parcos recursos que estão disponíveis. Não adianta dinheiro sem planejamento e conhecimento. Este é um tema que a sociedade brasileira deveria abraçar para que no futuro tenhamos uma saúde melhor e realmente para todos!

Quero um código civil só pra mim!

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Já imaginou se cada cidadão ou grupo de cidadãos pudesse alterar o código civil ou penal de acordo com seus interesses? Teríamos provavelmente um completo caos. Por mais incrível que possa parecer é o que acontece com a saúde no Brasil.

A Associação Medica Brasileira há muito criou a CBHPM (Classificação Brasileira Hierarquizada de Procedimentos Médicos). Após um intenso trabalho foi elaborada esta tabela que estabelece o valor mínimo a ser pago por um procedimento médico.

Sabe quem segue rigorosamente esta tabela? Ninguém! Alguns poucos planos de saúde seguem a tabela para consultas, mas quando caminhamos em direção à média e alta complexidade os planos alteram os valores para menos.

O que a maioria dos planos faz para não seguir a recomendação da AMB é criar seu próprio mundo. É como se pudéssemos criar nosso próprio código civil ou penal de acordo com nossos interesses. Os planos mantêm a mesma numeração dos códigos e os mesmos nomes aos procedimentos, mas alteram seus valores, obviamente, diminuindo os valores a serem pagos. Hoje a quase totalidade dos planos de saúde não aplica na integra a CBHPM. Alguns para não chamar tanto a atenção para a má remuneração dos profissionais diz que usa a tabela proposta pela AMB, todavia aplica tabelas já há muito defasadas. Em 2015 existem planos que utilizam a tabela de 2008 ou anteriores.

Cada plano cria seu próprio mundo e vive nesta redoma. Os profissionais que não se sujeitam são convidados a se retirar do plano. O mais absurdo é que nossas autoridades de saúde são cientes e coniventes com isso.

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Se tivéssemos uma saúde séria deveria ser proibido a cada convenio criar sua tabela. Se a tabela é da Associação Medica Brasileira ela deveria ser universal a todos as entidades que comercializam planos de saúde no território brasileiro, a rigor inclusive o próprio SUS (Sistema Único de Saúde) deveria adotá-la criando assim um parâmetro único para a remuneração da atividade médica no país. As autoridades nacionais de saúde deveriam ser mais transparentes e exigir respeitabilidade à tabela da Associação Medica Brasileira e suas respectivas atualizações. Da mesma forma como não podemos alterar os códigos civil ou penal não poderíamos permitir alterações na tabela de uma entidade nacional, devidamente reconhecida e que estabelece a remuneração mínima por procedimentos médicos.

Quem sabe um dia tenhamos menos demagogia e mais seriedade das autoridades nacionais de saúde e talvez neste dia dois pesos e uma só medida. No momento temos infinitos pesos e infinitas medidas. Fica ao gosto de cada plano!

Meu plano de saúde bate um bolão!

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Nunca a saúde do país esteve tão doente. Cada dia mais as operadoras de saúde tratam a saúde como “negócio” e com isso desprezam o fato desta atividade ser algo diferente das demais. Através de contratos milionários de patrocínio investem vultosas quantias em clubes de futebol, clubes de vôlei, teatros entre outras atividades de publicidade.

A saúde do Brasil virou um grande balcão de negócios onde a propaganda é o que importa. Entretanto, após adquirir o plano de saúde a realidade é bem outra. Com propostas fantasiosas as operadoras conquistam seus usuários que nem de longe tem a vaga noção do que virá depois.

Eles somente contemplam parte da verdade quando necessitam dos serviços de seus planos, particularmente se isso envolve procedimentos de alta complexidade e, portanto, gastos maiores. Nestes casos aqueles mesmos que te procuravam oferecendo tudo se negam a cobrir o básico e não raro somente o fazem a custa de ações judiciais. Caberia ao Ministério da Saúde a aos órgãos reguladores coibirem o tratamento da saúde desta forma tão vil e grosseira. Saúde não é negócio! Saúde é um bem que não tem preço e deveria ser tratado como tal.

Imaginem se ao invés de investirem cifras milionárias em patrocínios que nada tem a ver com o objetivo fim da saúde – “você saudável” – este dinheiro fosse obrigatoriamente reinvestido na remuneração dos profissionais de saúde, na melhoria das condições hospitalares e na aquisição de melhores equipamentos. Assim, se seu plano de saúde bate um bolão, cuidado, muito provavelmente ele não patrocina você!

É questão de ter voz ativa!

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Sempre quis ter um blog e manifestar minhas opiniões como profissional médico. Lá se vão mais de 25 anos no exercício da medicina. Tive grandes professores ao longo da minha carreira profissional, desde a Faculdade em Ribeirão Preto, passando pela residência, Pós Graduação, Mestrado e Doutorado. São muitas memórias, tantos casos, profissionais e pessoas que passaram pela minha trajetória.

Nesse caminho a cirurgia cardiovascular evoluiu muito e muitos profissionais devem ser reconhecidos neste processo como o grande Dr. Adib Jatene, a quem prestei uma breve homenagem em um artigo publicado ano passado. Aliás, comunicação sempre foi uma paixão. Em 2014 iniciamos um processo de modernizar a comunicação da MHV Serviços Médicos e hoje estamos na internet com um site atualizado, perfil no facebook e até mesmo no Instagram com dicas sobre saúde acessíveis a qualquer pessoa, onde quer que esteja.

Aqui expresso minha opinião como profissional médico e sobre a medicina, tão carente de investimentos e de gestão séria em um país que assiste de mãos atadas o estopim de um grande escândalo de corrupção por dia. É questão de ter voz ativa! É questão de se comunicar. Nos veremos agora, também por aqui.